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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

AS LINHAS MESTRAS DA AVALIAÇÃO DOS SISTEMAS EDUCATIVOS



A educação é, sem dúvida, um dos pilares fundamentais para o crescimento económico de um país. Devido ao fenómeno da globalização não é de todo possível dissociar a Educação da Economia na medida em que os países competem entre si pela detenção da nova forma de poder económico – o conhecimento -tentando atingir uma posição mais vantajosa em termos de mercado. Neste sentido, os países foram obrigados a repensar as suas políticas educativas, mais concretamente, os seus sistemas educativos, com o intuito de incrementar a eficácia dos mesmos. Houve então a necessidade de introduzir medidas que refletissem o grau de desempenho dos alunos e dos professores nas escolas públicas e aferir de que forma este desempenho garantiria qualidade máxima na educação que, por sua vez, permitisse encarar a globalização e responder mais eficaz e eficientemente ao mercado de trabalho cada vez mais exigente em termos de formação. Falamos, portanto, da avaliação regida por objectivos e metas implementada em muitos países da União Europeia, sobretudo a partir do ano de 2000 pelas medidas impostas pelo Conselho Europeu de Lisboa, que visava um compromisso de honra por parte dos países participantes para tornar a União Europeia uma fonte de Educação de excelência. Decidiu-se implementar a avaliação dos alunos e dos professores para aferir as competências dos mesmos no seio do sistema educativo, de forma a garantir uma supremacia económica graças ao desempenho das escolas públicas.

A avaliação, abrangida pela LBSE, ainda não havia sido debatida tida em conta, com tanta intensidade e seriedade como agora, em especial a avaliação do desempenho docente, gerando discussões relevantes acerca da sua importância e a forma como deve ser feita. A avaliação pretende, entre outras coisas, medir através de parâmetros quantitativos a capacidade de analisar, compreender e refletir sobre os conhecimentos adquiridos por parte dos alunos e aferir o desempenho dos docentes. É, portanto, um instrumento ao serviço dos governos para que estes possam adaptar e melhorar as suas políticas no que toca aos sistemas educativos. Clímaco (2005) defende mesmo que “para a sobrevivência das novas sociedades, tornou-se indispensável rever os modelos de educação das novas gerações, nomeadamente no que se refere ao tipo de competências, destrezas e conhecimentos a promover através dos currículos escolares, de modo a prepará-las quer para novos tipos de aprendizagem, quer para a sua integração no mundo do trabalho, ou para se ajustarem à própria instabilidade do mercado de trabalho”.

 

PISA (Programme for International Student Assessment)

No ano de 1997 foi criado o PISA (Programme for International Student Assessment), considerado uma das ferramentas mais importantes da política educativa, através uma iniciativa dos países membros da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico) que pretendia medir/avaliar o desempenho dos alunos nos diferentes níveis de literacia – nas áreas da leitura matemática e ciências - na faixa etária de 15 anos, idade com a qual se obtinha a escolaridade mínima obrigatória na altura. “Trata-se de um programa de avaliação comparada destinado a produzir indicadores sobre o desempenho dos alunos da faixa etária de 15 anos. (…) Esses indicadores pretendem tirar conclusões sobre a efetividade dos sistemas educacionais” (Silva, n.d.:1). Na altura este programa contou com a participação total de 43 países e, passados alguns anos, mais concretamente em 2009, contou já com 74 países embora tivesse havido um decréscimo na participação dos países no ano de 2012, com apenas 63 países.   

 “O PISA fornece comparações internacionais de desempenho dos sistemas de ensino, através de instrumentos válidos e culturalmente transversais de avaliação das competências fundamentais para a vida adulta, permitindo conhecer o quão efetivamente as escolas preparam os alunos para a vida depois de concluída a educação formal” (Serrão, 2013:3).

 Neste sentido, é possível afirmar que a avaliação PISA é fundamental para não só averiguar e reflectir acerca do desempenho da comunidade escolar como para se percepcionar futuros padrões de comportamento por parte dos jovens. Desta forma, o PISA permite obter informações acerca dos sistemas de ensino estabelecendo comparações do grau de desempenho dos alunos, suas competências e sua preparação para uma cidadania ativa em sociedade. Assim sendo, permite reorientar as políticas educativas preconizadas pelos diversos países.

Contexto nacional

“A avaliação responde, ao mesmo tempo, a uma demanda de transparência e de informação sobre o sistema educativo, emanando das famílias, das empresas e das coletividades públicas, e a uma necessidade de ‘pilotagem’ e de regularização sentida pelos próprios atores educativos. Entretanto, a forte legitimidade que respalda a questão escolar não deve nos impedir de fazer uma reflexão mais crítica sobre seus fundamentos ideológicos e cognitivos.” (Roggero, Pascal, 2002:39)

Em Portugal ainda há um longo caminho a percorrer pois a prática da avaliação encontra-se inconsistente e desajustada. Isto porque todo o processo é feito com uma total ausência de comunicação entre quem é avaliado e quem avalia. Este é apenas um dos aspectos a melhorar para que haja uma confiança/diálogo entre os diferentes intervenientes contribuindo para o grande objectivo da avaliação, ou seja, para um crescimento dos resultados dos alunos e a eficiência e eficácia da actividade docente, apesar dos esforços para acompanhar a competitividade. No entanto, “não há uma conceção comum sobre os fins da educação, como também não há uma boa forma de os prosseguir, caso venham a ser identificados.” (Dale, 2008: 18)  

“A regulação é muito simplesmente aquilo que permite ao sistema funcionar e se transformar, e neste sentido, permite compreender como e porquê um conjunto de elementos, de ações ou indivíduos se organizam no seio de uma entidade global com fim de prosseguir uma certa finalidade” (Diebolt, in Almeida, 2005:3).

 Estamos, então, perante um número de ações que procuram estabelecer regras com o propósito de ajustar determinadas orientações para criar linhas orientadoras/uniformizadoras. Assim sendo, no contexto educativo este conceito encontra-se relacionado com a intervenção do estado nas políticas públicas que estabelece, ajusta e atualiza. A questão que agora emerge é qual a função reguladora da avaliação no ensino?

A função da regulação na aprendiazagem/avaliação é extremamente importante. Esta contribui para a progressão ou redirecionamento da aprendizagem. Desta forma, o ato de regulação tem de considerar o aluno como sujeito central e ativo uma vez que nenhuma aprendizagem tem o seu clímax se a intervenção externa não for entendida pelo aluno. Neste sentido, a regulação poderá ser evidenciada através de processos como a avaliação formativa e sumativa.

Considerações finais

A avaliação dos sistemas educativos dos países europeus está em andamento e apesar dos aspectos positivos ao tentar medir a eficácia e eficiência de todo o sistema há quem a entenda como contraditória. Certo é que com a avaliação, os professores ao invés de progredirem na carreira sentem que o sistema é castrador e desmotivante. Assim, é urgente e imperativo encontrar instrumentos eficazes e eficientes para avaliar a educação, já que segundo organismos internacionais de renome, os sistemas educativos necessitam de uma reformulação e adaptação profunda para que a escola pública seja de todos e para todos.

 

Bibliografia

·         Barroso, João, 2005. O Estado, a Educação e a Regulação das Políticas Publicas. Educ. Soc., Campinas, vol 26, n. 92, p. 725-751, especial – Out. 2005

·         Clímaco, Maria do Carmo (2005). Avaliação de Sistemas em Educação. Lisboa. Universidade Aberta.

·         Jornal oficial das comunidades Europeias, I (comunicações) Conselho: programa de trabalho pormenorizado sobre o seguimento dos objetivos dos sistemas de educação e de formação na Europa (2002/C 142/01)

·         Ministério da Educação & Organização de Estados Iberoamericanos, 2003. Sistema Educativo Nacional de Portugal:2003 – Caderno 15. Investigação, Planeamento e Avaliação do Sistema. Ministério da Educación y Ciencia de España. Retirado online http://www.oei.es/quipu/portugal/ e http://www.oei.es/quipu/portugal/inf_evaluacion.pdf - Acesso em 22/01/2015

·         Roggero, Pascal, Avaliação dos sistemas educativos nos países da União Européia: de uma necessidade problemática a uma prática complexa desejável. Eccos, Revista Científica, vol. 4, núm. 2, dezembro, 2002, pp. 31-46, Universidade Nove de Julho Brasil.

·         Rufino, César, 2007. Avaliação interna das escolas e circulação de políticas públicas num espaço educacional europeu. Sísifo. Revista de Ciência da Educação, 04, pp. 29-38. Consultado em Janeiro, 2015 em http://sisifo.fpce.ul.pt

·         Serrão, Anabela, O PISA e a participação de Portugal. CIES e-Working Paper N.º 162/2013. Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, Instituto Universitário de Lisboa 

·         Silva, Rolando, n.d. O PISA como instrumento de conformação dos sistemas de ensino numa perspetiva neoliberal. Retirado online: http://www.apagina.pt/Download/PAGINA/SM_Doc/Mid_1/Doc_13851/Anexos/PISA.pdf

·         “Tejinha”, n.d.Modelos de Avaliação dos Sistemas Educativos. Retirado online: http://www.slideshare.net/tejinha/modelos-de-avaliao-dos-sistemas-educativos

·         Troja, R., Pereira, G. & Corrêa, V., 2012. A Influência da OCDE nas Políticas de avaliação sob a Perspetiva do PISA e do TALIS. Retirado online: http://www.sbec.org.br/evt2012/trab49.pdf

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Os sistemas educativos na sociedade do conhecimento e a educação ao longo da vida

A sociedade do conhecimento
“O nosso mundo está em processo de transformação estrutural desde há duas décadas. É um processo multidimensional, mas está associado à emergência de um novo paradigma tecnológico, baseado nas tecnologias de comunicação e informação”. (Castells, 2005:17). O conceito de sociedade de informação e conhecimento, introduzido com o intuito de caraterizar a nova era da nossa sociedade, deu origem a profundas transformações na mesma, surgindo conceitos como “aldeia global”, “era digital” e “sociedade pós-industrial”, que identificam a dimensão desta grande transformação. Apesar de a tecnologia ser um fator primordial para a nova organização social baseada em redes, “a tecnologia é condição necessária mas não suficiente para a emergência de uma nova forma de organização social baseada em redes, ou seja, na difusão de redes em todos os aspetos da atividade na base das redes de comunicação digital” (Castells, 2005:17).
Mas o que é a que nova forma de organização social, ou seja, a sociedade em rede que Castells tanto fala? “A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes” (Castells, 2005). De facto, as organizações em rede são críticas, tal como foi crítico o processo de integração vertical da produção num grande número de organizações da Era Industrial. As redes operam ao longo de vários processos que se reforçam uns aos outros desde os últimos vinte e cinco anos, como por exemplo, pequenas e médias empresas que formam redes de negócios, mantendo a sua autonomia e flexibilidade enquanto tornam possível a utilização conjunta de recursos para atingir a massa crítica, conseguindo, assim, competir no mercado. De facto, podemos dizer que a atividade económica é realizada por redes de redes, construídas em torno de projetos de negócio específicos. Esta Sociedade da Informação exige novos conhecimentos e novas práticas, obriga a um esforço de aprendizagem permanente. Há necessidade de dispor de trabalhadores cada vez mais flexíveis e dinâmicos com abertura e recetividade à mudança.
Assim sendo, podemos afirmar que o desenvolvimento acelerado das novas tecnologias está a provocar uma metamorfose global e radical. Neste sentido, convém refletirmos acerca das principais características da sociedade da informação, em primeiro lugar a globalização: o mundo transformou-se numa “aldeia global”. Podemos hoje assistir, em direto, a acontecimentos que estão a ocorrer do outro lado do planeta. Ou seja, o horizonte das pessoas deixou de ser a aldeia ou a região e passou a ser o planeta. As pessoas podem deslocar-se pelos vários continentes. A informação circula por todo o globo, a economia é global. Em suma, o homem tornou-se planetário, o homem, venceu a distância. Em segundo lugar aponto a velocidade, ou seja, durante muito tempo a produção e circulação da informação foi relativamente lenta. Atualmente, as informações são veiculadas à velocidade da luz, com a ajuda, por exemplo, da internet. Outra das características é a aceleração, isto é, todos os novos meios e suportes da informação, para além de permitirem um incremento na produção e circulação da informação, fazem com que cada vez se produza mais e mais depressa. A ideia é que hoje nada é estável, tudo se transforma, e muito rapidamente. A instantaneidade é outra das características. De facto, num abrir e fechar de olhos sabemos o que se passa do outro lado do planeta.
A crescente circulação da informação conduz a uma desatualização constante, outra das características desta nova sociedade. Longe vão os tempos em que uma licenciatura proporcionava conhecimento suficiente para toda a vida. Hoje, há a constante necessidade de nos atualizarmos para que os nossos conhecimentos não fiquem obsoletos. Neste sentido, existe nesta sociedade a necessidade de formação permanente, ou seja, além do tempo de estudo temos também os conhecimentos que resultam da nossa vivência, do nosso trabalho, e até da socialização com o outro em sociedade. Na verdade, temos de ter em mente que nunca estamos atualizados dado o ritmo de mudança ser tão rápido. Por último, aponto como característica a mediatização. Estamos emersos num, ambiente social novo. O contacto direto com a realidade passou a ser um contacto artificial e passamos a ter o que chamamos de realidade virtual.

Globalização e a educação
A Sociedade da Informação que Castells fala exige novos conhecimentos e novas práticas, obriga a um esforço de aprendizagem permanente, como referi anteriormente. “Na base de todo o processo de mudança social está um novo tipo de trabalhador, o trabalhador autoprogramado, e um novo tipo de personalidade, fundada em valores, uma personalidade flexível capaz de se adaptar às mudanças nos modelos culturais, ao longo do ciclo de vida, porque tem capacidade de dobrar sem se partir, de se manter autónoma mas envolvida com a sociedade que a rodeia”. (Castells, 2005:27)
Em épocas de profundas mudanças sociais, a escola tem sido colocada em causa. A importância do papel do professor enquanto agente de mudança nunca foi tão importante. Inicialmente, uma das finalidades de base do sistema educativo foi alfabetizar os alunos, para saber ler, escrever e contar. Hoje, esta finalidade mudou radicalmente já que a comunicação não é somente feita através da linguagem escrita e oral mas sobretudo através da visual, audiovisual e multimédia. Neste sentido, qualquer pessoa que não trabalhe com as novas tecnologias não conseguirá aceder a grande parte da informação veiculada na nossa sociedade, logo não terá acesso à cultura da sociedade da informação.
Apesar de todos os esforços feitos até agora, a escola não se soube adaptar às novas tecnologias educativas. Existe um enorme desfasamento entre o que exige o novo ambiente social e o que as escolas estão em condições de poderem oferecer. É comum, ouvir hoje falar em, por exemplo, alterações ou “reformas” da gestão e da organização escolar. O certo é que as novas tecnologias da informação e comunicação colocam em causa o tradicional ato de ensinar e aprender, a nossa forma de organização do trabalho, os nossos hábitos e atitudes. É neste sentido que há a necessidade de fazer alterações. Para a escola tirar um verdadeiro proveito das novas tecnologias e se adaptar às necessidades da sociedade da informação, a escola tem de pensar as suas estruturas, a sua organização geral, os seus métodos pedagógicos e o próprio conteúdo do que é aprender. Ainda neste sentido, e para que haja uma aproximação entre educação formal, sociedade e desenvolvimento tecnológico devem ser pensadas e criadas novas infra-estruturas, tais como novos equipamentos em quantidade e qualidade e com as necessárias atualizações. Bem sabemos que tal exige um grande investimento por parte do Estado mas também sabemos que a educação é a o pilar desta sociedade. Assim sendo, deve ser uma prioridade. Deve também existir mais autonomia para adaptação às realidades sociais, e abertura a novas fontes de saber e uma maior flexibilidade curricular apostando-se em programas centrados não nos conteúdos, mas na aquisição de competências. Além disso, o professor deve ser o gerador de cenários, o criador de condições para que o aluno construa o seu conhecimento e desenvolva capacidades passando a ser ele próprio o agente da sua própria aprendizagem. Ou seja, o professor deve promover novas orientações, orientar grupos de trabalho. Por último, e não menos importante, devem existir novos suportes de informação e meios de aprendizagem, tais como software educativo, enciclopédias multimédia e Internet para que possa existir um trabalho colaborativo na própria escola ou até mesmo entre escolas.
Facto é que as mudanças sociais trazem consigo novas necessidades educativas!

Os sistemas educativos na sociedade do conhecimento e a educação ao longo da vida
“In March 2000, the Lisbon European Council set a new strategic goal for the European Union: to become ‘the most competitive and dynamic knowledge-based economy in the world, capable of sustainable economic growth with more and better jobs and greater social cohesion’. To achieve this, Europe's education and training systems need to adapt to the demands of the knowledge society and to the need for an improved level and quality of employment.” (European Comission:1)
O Conselho Europeu de Lisboa face às exigências da União Europeia no que toca a sociedade do conhecimento, em março de 2000, definiu um novo objetivo estratégico para a década 2000/2010 cujo objetivo central era o de adaptar/uniformizar os sistemas de educação. O panorama apontava para grandes implicações na educação e na formação fortalecendo e reafirmando o seu papel no progresso global das sociedades. Pretendia-se, pois, “aumentar a qualidade e eficácia dos sistemas de educação e formação na EU, facilitar o acesso de todos aos sistemas de educação e formação, abrir ao mundo exterior os sistemas de educação e de formação.” (Ramos, 2010) O mesmo Conselho Europeu, dando uma resposta europeia à globalização e, portanto, às novas sociedades baseadas no conhecimento, definiu que deveria ser criado um quadro europeu que definisse as competências-base a adquirir através de um novo conceito, o da aprendizagem ao longo da vida. Este tipo de aprendizagem passa a ser de caráter prioritário e pretende englobar toda a aprendizagem que um indivíduo realiza desde a idade pré-escolar até à pós reforma, ou seja, ao longo de toda a sua vida. Esta ideia é primordial para a competitividade da economia do conhecimento, aplicando-se a qualquer nível e forma de aprendizagem e dizendo respeito a todas as fases da vida do aprendente. 

Desta forma, cria-se pela primeira vez um Quadro de Referência estabelecendo oito competências essenciais da Aprendizagem ao longo da vida, a saber: competência de comunicação na língua materna; competência de comunicação em línguas estrangeiras; competência matemática e competências básicas em ciências e tecnologia; competência digital; competência de aprender a aprender; competências sociais e cívicas; competência de “espírito de iniciativa” e “espírito empresarial”; competências de sensibilidade e expressão culturais.
Apesar de terem sido observados alguns progressos no que toca ao abandono escolar precoce, a participação dos adultos na aprendizagem ao longo da vida não teve o aumento expectável, inicialmente pensado. Porém, as empresas adaptaram-se melhor a este cenário com o intuito de aumentarem a sua competitividade no mundo globalizado. De forma a colmatar as carências observáveis em maio de 2009, através do programa “Educação e Formação para 2010” é definido um novo quadro estratégico que contribuísse para a Europa do conhecimento e que tornasse a aprendizagem ao longo da vida uma realidade de todos e para todos. O grande objetivo deste quadro era apoiar todos os Estados Membros na reorganização e no progresso de todos os sistemas educativos e de formação para que cada país conseguisse assegurar uma economia sustentável e uma maior empregabilidade, numa perspetiva de aprendizagem ao longo da vida, em ambiente formal, não formal ou informal.
Mas, afinal, em que consiste a aprendizagem ao longo da vida? “O conceito de educação ao longo da vida deve ser encarado como uma construção contínua da pessoa humana, dos seus saberes, aptidões e da sua capacidade de discernir e agir. A escola desempenha um papel fundamental em todo o processo de formação de cidadãos aptos para a sociedade da informação e deverá ser um dos principais focos de intervenção para se garantir um caminho seguro e sólido para o futuro”. (M.S.I., 1997) De facto, esta aprendizagem pretende que os professores e a escola capacitem os nossos alunos para aprender em qualquer fase da sua vida, melhorando sempre os seus conhecimentos, aptidões e competências em termos pessoais, cívicos, sociais e profissionais, isto é, uma aprendizagem informal. Neste sentido, pretende-se uma educação através da qual se obtenha uma maior qualificação para o uso das tecnologias e mais centrada em torno da aprendizagem e não no ato de ensinar.


A aprendizagem ao longo da vida assenta em quatro grandes pilares, a saber, aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver em comum e aprender a ser. No que diz respeito ao pilar aprender a conhecer há a necessidade de um domínio dos instrumentos do conhecimento e encarar este mesmo conhecimento como múltiplo e em constante evolução. O aluno deve ter noção que para ter um espírito verdadeiramente formado deve possuir uma cultura geral vasta pois assim terá a possibilidade de tratar em profundidade um maior número de assuntos. Deve também aprender a aprender de forma a beneficiar as oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida, “exercitando a atenção, a memória e o pensamento”. (Delors, 1996, p.92)
Quanto ao aprender a fazer, o segundo pilar, o aluno faz como que uma ligação com a profissionalidade, ou seja, não só aprender a profissão mas também aprender a fazer no âmbito das diversas experiências sociais pelas quais vai passando ao longo da vida. O terceiro pilar, aprender a viver em comum, pretende que o aluno obtenha uma educação virada para a cidadania onde este seja capaz de evitar os conflitos ou de os resolver de uma forma pacífica, através do conhecimento dos outros e das suas culturas. Por último, o aprender a ser, visa uma educação que contribua para o desenvolvimento total do aluno enquanto indivíduo de uma sociedade, ou seja, inteligência, sentido estético, responsabilidade pessoal e “espiritualidade”. Assim sendo, este tipo de aprendizagem visa uma educação em torno do conteúdo, das competências e das atitudes. Obviamente que para tal acontecer há a necessidade de novas infraestruturas, de uma nova organização, de novos meios de aprendizagem, por exemplo, através das tecnologias digitais e, especialmente, na minha opinião, uma nova postura por parte dos professores e alunos perante o ato de ensinar e aprender. Acima de tudo porque hoje os alunos vêm-se confrontados com aquilo que aprendem através dos meios de comunicação social, de uma forma mais facilitada e sem grande esforço, e com o que aprendem nas escolas, onde lhes é exigido um conhecimento mais profundo, mais crítico, de forma a atingir o sucesso. Neste sentido há que existir uma melhoria das competências dos professores, por exemplo, ao nível da sua própria formação para que este possa ser capaz de reformular os programas da sua disciplina através da colaboração entre grupos profissionais e governantes e reformular métodos pedagógicos, materiais e apoios didáticos. Ou seja, o professor deve saber tirar partido da tecnologia, saber utilizá-la para uma maior interação no processo educativo de maneira a orientar os alunos na exploração da realidade circundante e para que estes possam pensar e refletir criticamente acerca da mesma. Só assim se tornarão pessoas livres e esclarecidas. Deve haver, para além disto, uma maior eficácia na gestão das escolas, ou seja, é necessário existir uma cultura de escola e de uma liderança eficaz com a cooperação dos professores, em geral. De facto, os professores e as escolas devem estar “abertas” a novas fontes de saber pois estas devem ser encaradas como espaços de exploração, de descoberta e de invenção. Esta nova sociedade, a sociedade digital pretende a participação da comunidade inteira na educação, isto é a criação de comunidades educativas a partir de escolas atuais onde há uma redefinição do papel dos professores, renovação tecnológica e uma aceitação da necessidade de promover o tipo de alfabetização próprio da sociedade de informação.
Contudo, é de sublinhar que apesar de todos os constrangimentos, Portugal, desde 2009, conseguiu entre todos os países da União Europeia ter uma melhoria significativa no que toca ao abandono escolar precoce. Também no ensino superior se verificou uma evolução embora, paradoxal, tal não contribua para um aumento da taxa de emprego nos jovens. No que toca à participação dos adultos na aprendizagem ao longo da vida esta tem vindo a baixar. Urge, o quanto antes, identificar e estabelecer estratégias que colmatem o desfasamento entre o nível qualificação oferecida pela força de trabalho e o exigido pelo mercado de trabalho. O estímulo presentemente prende-se com o continuar a melhorar o sistema de ensino, limitado em muito pelo orçamento de estado, adaptando-o/reorganizando-o e conduzindo-o cada vez mais para a aprendizagem ao longo da vida.

Considerações finais
A sociedade da informação e do conhecimento deve ser considerada uma sociedade da aprendizagem, pois a crescente disponibilização da informação não basta para caracterizar uma sociedade da informação. O mais importante é desencadear um vasto e contínuo processo de aprendizagem.
“A aprendizagem ao longo da vida tornou-se uma necessidade de todos os cidadãos. Precisamos de desenvolver as nossas aptidões e competências ao longo das nossas vidas, não apenas para a nossa realização pessoal e a nossa capacidade de participar ativamente na sociedade em que vivemos, mas também para sermos capazes de ter êxito num mundo laboral em constante mudança.” (Competências essenciais para a Aprendizagem ao Longo da Vida, 2007:1) Apesar da intenção e preocupação em implementar e ALV, na realidade, os currículos, enquanto plano e conjunto de conteúdos, não dão uma resposta eficiente e eficaz à complexidade do conceito desta aprendizagem e dos seus pressupostos. Ou seja, os currículos não se encontram ajustados e nem promovem a ALV, na totalidade. Para que tal suceda, “importa que todos que todos compreendam, desde tenra idade, a importância da educação e da formação ao longo da vida. Neste contexto, os sistemas de educação e de formação têm um papel importante a desempenhar, mas as famílias, as comunidades locais e os empregadores devem também contribuir ativamente para a aprendizagem possa tornar-se parte integrante da atividade” (Jornal Oficial das Comunidades Europeias, 2002:12).
É urgente esta reflexão/tomada de consciência para uma cidadania ativa e uma maior empregabilidade, isto é, é imperativo dar-se “poder” às experiências da construção do individuo, o mesmo é dizer, às aprendizagens, para que todos nós, sem exceção, possamos ter uma sociedade mais equitativa. Tal, passará por, por exemplo, relacionar currículo, quotidiano, educação, poder, cultura pois os conteúdos escolares não podem nem devem resultar apenas e só em conhecimentos sistematizados. Utopia ou não… eis a questão!



Bibliografia

ü  Castells, M. (2006). A sociedade em rede: do conhecimento à política. In M. Castells & G. Cardoso (Coord.), A Sociedade em Rede: do Conhecimento à Política. Debates: Conferência promovida pelo Presidente da República (pp. 16-29). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
ü  Conselho Nacional da Educação, "Estado da Educação 2013".
ü  European Commission. 2004. Implementation of “Education and Training 2010” Work Programme: Working Group B “Key Competences” – Key competences for lifelong learning, a European reference framework. Directorate-General for Education and Culture
ü  Jornal Oficial da União Europeia. "Recomendação do Parlamento Europeu e do Conselho de 18 de dezembro de 2006 sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida".
ü  Jornal Oficial das Comunidades Europeias.2002,"Programa de trabalho pormenorizado sobre o seguimento dos objectivos dos sistemas de educação e de formação na Europa".
ü  Meirinhos. M. (2000). A Escola perante os Desafios da Sociedade da Informação. Encontro As Novas Tecnologias e a Educação. Bragança: Instituto Politécnico de Bragança.
ü  Ministério da Ciência e Tecnologia. Missão para a Sociedade da Informação (M.S.I.) (1997). Livro Verde para a Sociedade da Informação. Lisboa, Portugal: M.S.I., D.L.
ü  Pérez Tornero, Juan Manuel (2007). As escolas e o ensino na sociedade da informação. In Pérez Tornero, Juan Manuel (coord.), Comunicação e educação na sociedade da informação. Novas linguagens e consciência crítica (pp. 41-47). Porto: Porto Editora.
ü  Ramos, Conceição. (s.d.). Estratégia de Lisboa: Programa de “Educação e Formação 2010”. Apresentação em pdf.

ü  Tornero. J. (2007). Comunicação e Educação na Sociedade de Informação. Porto: Porto Editora




domingo, 30 de novembro de 2014

Modelos e tendências evolutivas nos sistemas educativos e o impacto das tecnologias nos sistemas educativos das sociedades em rede

Os sistemas educativos:  princípios orientadores e modelos organizativos

São inegáveis as alterações a que a sociedade tem sido sujeita, sobretudo nos últimos anos. Estamos constantemente a ser bombardeados com novas informações veiculadas através das novas tecnologias. A teoria defendida há instantes começa imediatamente a ser posta em causa. A educação não escapa aos novos tempos e vê-se confrontada com novos desafios. Paralelamente, acontece o mesmo com os sistemas de ensino. Mas o que é um sistema de ensino e quais os seus modelos/princípios orientadores? Segundo Gaspar (2005) um sistema de ensino é “o sistema educativo é um conjunto organizado e coerente de vários elementos que se congregam para atingirem um fim último”. (Gaspar, 2005: 306) O mesmo autor defende que todo e qualquer sistema educativo é estudado a partir dos seus princípios orientadores. É precisamente o grau de aplicabilidade destes princípios que estabelecem as diferenças entre os sistemas de ensino existentes.
Os princípios orientadores de acordo com Gaspar (2005) podem agrupar-se em três vetores, a saber, vetor da seletividade, o vetor da homogeneidade e o vetor da funcionalidade. O primeiro vetor carateriza-se pelos princípios da “Igualdade de direitos e deveres, da Igualdade de oportunidades, da solidariedade, da responsabilidade, da universalidade, da obrigatoriedade e da gratuitidade”. O segundo é caracterizado pelos princípios da “generalidade, da especialização, da diferenciação, da inclusão/exclusão, da permeabilidade/estanquicidade e da meritocracia”. Finalmente, o terceiro está envolto do “princípio da utilidade, da flexibilidade, da mutabilidade, da continuidade e da adaptabilidade”. (Gaspar, 2005: 358)
Vaniscotte, citado por Gaspar (2005), apresenta 4 tipos de sistemas educativos resultantes desta caracterização:
1.      Tipo escandinavo, onde prevalecem os princípios da Igualdade e da oportunidade;
2.      Tipo anglo-saxónico, onde predomina o princípio da diferenciação e da flexibilidade;
3.      Tipo germânico, onde domina o vetor funcionalidade e os princípios orientadores da adaptabilidade e da continuidade;
4.      Tipo latino-mediterrâneo, onde sobressai o princípio da generalidade com predominância no da especialização. (Gaspar, 2005: 359)
Nos últimos tempos, verifica-se uma tentativa de adaptação dos sistemas de ensino à sociedade do conhecimento. Com as novas políticas na Europa surgem quatro princípios éticos que são comuns a todos os sistemas educativos dos países membros. Falamos, pois, do princípio da subsidiariedade, da solidariedade, da responsabilidade e da laicidade. Neste sentido, Ramos (2011) refere:
“O princípio da subsidiariedade reconhece que um ou o conjunto dos Estados-Membros da União Europeia dispõem apenas das competências que as pessoas, as famílias, as empresas e as administrações locais ou regionais não podem assumir isoladamente;
O princípio da solidariedade exige a todos os membros de uma comunidade que se envolvam de uma forma firme e perseverante no bem de tosos, considerando-o prioritário, isto é, prevalecente sobre o interesse individual;
O princípio da responsabilidade consiste na capacidade e no dever de todo o cidadão assumir consciente, moral e juridicamente as suas decisões e as obrigações que elas comportam;
O princípio da laicidade afirma que a liberdade da pessoa face às ideologias, os sistemas de vida e às diferentes religiões.” (pág. 25,26)
Podemos ainda caracterizar os sistemas educativos a partir dos seus modelos organizativos: o modelo centralizado e descentralizado. No primeiro caso, as decisões ficam a cargo do nível macro tendo, por sua vez, o nível meso e micro a responsabilidade de as aplicar na prática. Por outro lado, no caso do sistema educativo descentralizado, deparamo-nos com o oposto. Aqui é o meso e o micro que detêm o poder de decisão, isto é, é localmente que as decisões são tomadas, tendo em consideração as intenções das populações. O poder de tutela fica a cargo do nível macro. Sendo assim, o que dizer do sistema educativo português? Defenderá ele os quatro pilares da educação?
A este propósito, Barreto (1995) vem dizer que “a orientação central do sistema levou à quase exclusão dos pais e das populações locais da organização, da orientação, da gestão e da avaliação das escolas, que, assim, ficam na dependência dos governantes, da burocracia e dos professores. É verdade que esse mal-estar (nos sistemas educativos) não resulta exclusivamente da escola, nem das características do sistema educativo, antes resulta, em grande parte, da sociedade envolvente. Mas também é resultado da desadequação da escola à sociedade.” Ora, sabemos que, atualmente, todas as esferas da sociedade se encontram fortemente afetadas pela crise. A educação também se encontra em crise e com ela o sistema educativo. Nesta linha de ideias, o mesmo autor refere “(…)não podemos negar que são vítimas dessa «crise» tanto os sistemas fortemente centralizados, entre os quais o português, como os relativamente descentralizados, de que os anglo-saxónicos são exemplo. Acontece que parte importante do que é a chamada «crise da educação» deve ser procurada fora dos limites do sistema educativo. Com efeito, um dos elementos essenciais dessa «crise» reside na desadequação entre as expectativas (o que se espera que a escola possa dar) e os resultados (o que a escola efetivamente dá).” (Barreto, 1995:171, 172)


O impacto das tecnologias nos sistemas educativos das sociedades em rede

“Las Nuevas Tecnologías de la Información y de la Comunicación han venido propiciando profundos câmbios en la manera como se procesa la información, se construye, se reconstruye y se comunica el conocimiento; situación que ha tenido su génesis fuera del âmbito escolar, pero que ya insiste en ser común en las prácticas pedagógicas cotidianas.” (Suárez Martin, 2000:49)

“Uma das finalidades de base do sistema educativo foi alfabetizar os alunos, para saber ler, escrever e contar. Definiu-se como pessoa alfabetizada, aquela que dominava os códigos base da cultura impressa, que possui algumas habilidades para se expressar através da escrita e que conseguia alguma destreza na realização de cálculos. Hoje, num mundo onde a comunicação não se realiza somente através da linguagem escrita e oral, mas também da visual, audiovisual, multimédia, e outras, utilizando novos meios e novos suportes, o conceito de alfabetização muda radicalmente. Qualquer indivíduo que não domine minimamente as novas tecnologias e as novas linguagens fica impedido de aceder a grande parte da informação veiculada na nossa sociedade”. (Meirinhos. M., 2000: 5)
A introdução das novas tecnologias, especialmente a internet e as tecnologias digitais, deu origem a um novo paradigma social ao qual apelidamos de sociedade do conhecimento. Perante este cenário a escola vê-se, atualmente, confrontada com novos desafios. “As novas características e necessidades da era atual reclamam uma nova educação”. (Meirinhos. M., 2000: 7)
O professor era, até há puco tempo atrás, o detentor do conhecimento, de todo o saber e havia muita “rigidez nos curriculos bem como uma valorização e até promoção da memorização dos conteúdos”. (Perez Tornero, 2007, p.24). Hoje exige-se que a escola e, sobretudo os professores, desenvolvam nos seus alunos diferentes capacidades, como a de participar e de interagir no mundo global que é extremamente competitivo. A este respeito Meirinhos (2000) afirmou “(…) a escola está a sofrer os efeitos da 3ª vaga, ou sociedade da informação e conhecimento. As mudanças sociais trazem consigo novas necessidades educativas. A escola tem de saber adaptar-se para poder dar resposta a estas novas necessidades. Tem de ser pensada como uma instituição da sociedade da informação”. (Meirinhos. M., 2000: 12)
O nosso sistema educativo esteve mergulhado sob o paradigma positivista resultante do pensamento newtoniano-cartesiano que promoveu uma separação entre o pensamento e a ação e entre a teoria e a prática. Esta perspetiva tem vindo a alterar-se e passamos a pensar em grupo/coletivo, seguindo um modelo em rede, um modelo de diálogo, de partilha através de uma participação intensa suportado pela partilha das tais representações do conhecimento que cada um de nós tem e vai adquirindo ao longo da vida. É, por isso, uma construção colaborativa do pensamento que permite a expansão de representações do conhecimento através da comunidade virtual em diferentes cenários de trabalho pois eu posso não estar numa aula mas ter uma aula através do meu computador ou até mesmo do meu telemóvel num lugar que me seja mais favorável para tal. Assim sendo, não se trata de apenas e só transmitir mas de conseguir partilhar, discutir, analisar e interpretar algo para a obtenção de um conhecimento mais profundo.
Estas alterações na sociedade devem-se, em muito, à globalização, que possibilitou e contribuiu muito para o progresso e inovação das tecnologias no sistema educativo. Porém, as novas tecnologias, enquanto ferramentas de apoio, devem ser usadas de forma a construir novas dinâmicas de interação e novas competências, não só em nós enquanto professores e/ou formadores, mas acima de tudo nos nossos jovens e adultos, de forma a promover a aprendizagem ao longo da vida e centrando a educação “no agente que aprende”. (Meirinhos. M., 2000:75)



Os sistemas de blended learning enquanto dispositivos pedagógicos



Nesta linha de ideias aparece o blended learning enquanto dispositivo pedagógico e as comunidades de aprendizagem e prática em sistemas de blended learning na rede social. Mas o que significa blended learning? Nas palavras de Monteiro, Moreira et al (2013) “Blended learning é uma estratégia dinâmica que envolve diferentes recursos tecnológicos, diferentes abordagens pedagógicas e espaços (formais e informais).Ou seja, para além da questão da integração dos momentos presenciais e não presenciais, devemos ter em conta também a conjugação de diferentes abordagens de ensino, a interação de diversos recursos tecnológicos e a adoção dos diferentes espaços de vida no processo de ensino-aprendizagem.” (p.33,34) O blending learning refere-se a um sistema de formação onde a maior parte dos conteúdos é transmitido à distância, normalmente pela internet. Entretanto, inclui necessariamente situações presenciais, daí a origem da designação blended, algo misto, combinado. O mesmo autor defende que “(…) o blending learning pode ser entendido como um processo de comunicação altamente complexo que promove uma série de interações que podem ser bem sucedidas, desde que sejam incorporados todos estes recursos tecnológicos, sem descurar a componente social e de ensino.” (Monteiro & Moreira, 2013: 34) Através do sistema blended learning o aluno depara-se com sessões presenciais e não presenciais o que contribui para a sua motivação e para cativar a sua atenção para o estudo, para a descoberta de novos conhecimentos. Daí que seja importante entendermos este sistema como uma estratégia que, não só, utiliza diversos recursos tecnológicos (blog, facebook) e diversas atitudes pedagógicas, mas que também permite ao aluno e ao professor, bem como à restante comunidade, gerar/construir conhecimento (s).
Existem inúmeras vantagens na sua utilização. Destaco sobretudo o acesso e a flexibilidade já que permite aos alunos com responsabilidade profissionais e familiares gerirem o seu tempo de uma forma mais racional. O facto de se utilizar as novas tecnologias em sala cativa e motiva os estudantes, sendo outra das vantagens. Para além disso, permite ao aluno interagir e comunicar com o restante grupo com qualidade já que aqueles poderão pensar de antemão no que irão escrever. Permite ainda que toda a comunidade online colabore com o intuito de “criar dinâmicas inovadoras.” (Monteiro & Moreira, 2013: 37) Saliento ainda o facto de o blended learning possibilitar a inclusão, no ensino, de pessoas com deficiências, desde que respeitem as regras de acessibilidade na Web. Desta forma, possibilita uma maior proximidade entre a comunidade de aprendizagem, como referi anteriormente. “Estas comunidades são uma importante alternativa à aprendizagem e aos contextos organizacionais tradicionais (…) “elas (as comunidades) representam ambientes intelectuais, culturais, sociais e psicológicos que facilitam a aprendizagem, enquanto promovem a interação, a colaboração e o desenvolvimento de um sentimento de pertença dos seus membros”. (Monteiro & Moreira, 2013: 53) Contudo, e para que possamos realmente implementar e generalizar o blended learning há ainda um longo caminho a percorrer! “A falta de formação técnica e pedagógica do corpo docente, a resistência à mudança por parte das escolas, as limitações técnicas e de largura de banda, a falta de cuidado e de integração do ambiente de e-learning nas atividades curriculares que condicionam ou limitam as possíveis mais-valias que a tecnologia poderia acrescentar” são apenas alguns exemplos das pedras no caminho… (Monteiro & Moreira, 2013: 39)

Considerações finais
O nosso sistema de ensino encontra-se obsoleto. Existe uma grande divergência entre o que seria ideal e a prática. O ideal seria um sistema educativo que se preocupasse em educar na diversidade e que se preocupasse, ao mesmo tempo, com o ser humano. Urge reconverter totalmente o sistema educativo onde estamos mergulhados. Só assim conseguiremos uma comunidade escolar sólida e eficaz que rume no sentido de dotar os indivíduos nos quatro pilares do conhecimento “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser”, educando de forma livre. (Delors, 1998) É ainda imperativo que o nosso sistema educativo congregue as competências específicas e as relacione com a atividade profissional através do currículo, mas que também possua as competências gerais para que nos possamos adaptar às inúmeras alterações da sociedade do conhecimento.
As novas tecnologias influenciam os sistemas educativos, não só enquanto objetos de estudo como também auxiliares deste. O simples livro, o lápis, o papel, a caneta e o quadro branco já há algum tempo, deixaram de captar a atenção dos alunos. Estes utensílios foram substituídos por computadores, tablets, telemóveis e pela internet. É inegável a predisposição dos alunos para estas novas formas de comunicação ao ponto destes perderem interesse no professor, como até agora a conhecemos. É tempo de despertar para a nova realidade que emergiu com a sociedade do conhecimento. Paralelamente, o sistema educativo e toda a comunidade escolar deve adaptar-se rumo à aprendizagem ao longo da vida! “Mas antes, é preciso começar por se conhecer a si próprio, numa espécie de viagem interior guiada pelo conhecimento, pela meditação e pelo exercício da autocrítica.” (Delors, 1998, p.16)
Os sistemas educativos ainda não facilitam a livre circulação dos alunos europeus, apesar de terem já princípios orientadores em comum. Há ainda um caminho a percorrer! Neste sentido, a generalização do ensino através do sistema blended learning seria uma mais-valia, devido às suas grandes vantagens. 






Bibliografia
·         Barreto, A. (1995). Centralização e descentralização no sistema educativo. In Análise Social vol. XXX (130), (1.º), 159-173
·         BENEDITO, N. (2007). "Modelos de Organização dos Sistemas Educativos", in Centralização de Sistemas Educativos e Autonomia dos Atores Organizacionais. Processos coletivos de interpretação das orientações centrais (Tese de Doutoramento), pp. 50-97. Braga: Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho.
·         Delors, Jaques et al (1998). Educação – Um tesouro a descobrir, Edições ASA, Porto
·         GASPAR, M. (2005). Sistemas Educativos: princípios orientadores. Lisboa: Universidade Aberta.
·         Meirinhos. M. (2000). A Escola perante os Desafios da Sociedade da Informação. Encontro As Novas Tecnologias e a Educação. Bragança: Instituto Politécnico de Bragança.
·         MONTEIRO, A., MOREIRA, J. A., ALMEIDA, A. C. & LENCASTRE, J.A. (Orgs.) (2012). Blended learning em Contexto Educativo: Perspectivas Teóricas e Práticas de Investigação. Santo Tirso: Defacto Editores.
·         Pérez Tornero, Juan Manuel (2007). As escolas e o ensino na sociedade da informação. In Pérez Tornero, Juan Manuel (coord.), Comunicação e educação na sociedade da informação. Novas linguagens e consciência crítica (pp. 41-47). Porto: Porto Editora.
·         Ramos, C. (2011). Sistemas Educativos da União Europeia – Para uma leitura do espaço europeu da educação. Lisboa: Universidade Aberta.