“O nosso mundo
está em processo de transformação estrutural desde há duas décadas. É um
processo multidimensional, mas está associado à emergência de um novo paradigma
tecnológico, baseado nas tecnologias de comunicação e informação”. (Castells, 2005:17).
Vivemos num período bastante conturbado, marcado por
profundas alterações nas diferentes esferas da sociedade. Estas alterações
prendem-se, acima de tudo, com o dia-a-dia das pessoas, o convívio social,
entre tantas outras, provocadas pelo avanço da tecnologia. Como têm sido
interpelados por estas evoluções a Educação e os sistemas de Ensino Educativos?
Las Nuevas Tecnologías y el Viejo Sistema Educativo
A escola, enquanto microssistema, é afetada por todas
as mudanças ocorridas na sociedade. Segundo a teoria ecológica de
Bronfenbrenner os microssistemas são afetados pelo ambiente não participante
ativo, mas que pode afetar o aprendente (exossistema), e abrangidos pelo ambiente
que envolve todos os ambientes formando uma rede de interconexões diferenciadas
pela cultura (macrossistemas). Os avanços da tecnologia na educação têm sido enormes,
especialmente nos últimos 50 anos. Ainda assim, não precisamos de recuar tanto
no tempo. Basta recuarmos há cerca de 20 anos atrás… nessa altura era
impensável, por exemplo, termos computadores dentro de uma sala de aula. Até há relativamente pouco tempo, no sistema
educativo, tivemos um paradigma positivista que resultou do pensamento newtoniano-cartesiano
existindo uma separação entre o pensamento e a ação e entre a teoria e a
prática. Porém, a globalização possibilitou e contribuiu muito para o progresso
e para a inovação das tecnologias no Sistema Educativo.
Este mundo tecnológico e globalizado tem trazido
inúmeros desafios à escola e aos professores/ formadores que se encontram no
meio deste cenário. É neste sentido que é cada vez mais importante reconhecer e
dominar o potencial educativo das tecnologias e aplicá-los em projetos pedagógicos
uma vez que a construção de ideias é algo fundamental na sociedade de hoje em
dia. Ou seja, nesta sociedade emergente e profundamente tecnológica a forma
como observamos o mundo à nossa volta e o construímos cognitivamente está a ser
construído de uma forma totalmente diferente de há uns anos atrás. E por quê?
Porque hoje temos a possibilidade de “imergirmos”, por exemplo, em redes
sociais e culturais, portanto, uma nova forma de conhecimento.
O conhecimento é, hoje em dia, construído em rede
originando aquilo a que chamamos a “sociedade digital” que não vive apenas da
tecnologia! As novas tecnologias devem ser usadas de forma a construir novas
dinâmicas de interação e novas competências, não só em nós enquanto professores
e/ou formadores, mas acima de tudo nos nossos alunos/formandos. Pretende-se que
as novas tecnologias sejam um complemento do nosso trabalho.
A questão da transmissão do conhecimento está a perder
cada vez mais importância uma vez que hoje impera o modelo de trabalho entre
pares. Temos hoje mais do que nunca a responsabilidade de desenvolver
competências nos nossos alunos/formandos que lhes permitam trabalhar num plano
global, um trabalhar social e cognitivo. Não se trata de incrementar a
realização dos trabalhos na sala de aula, trata-se, sim, de perceber que
existem novos métodos, outros processos aliados às tecnologias que permitem
aquilo a que esta nova sociedade digital chama de uma “mediação” que se reflete
de forma diferente nos processos entre os diversos intervenientes, isto é, uma
nova forma de construir o conhecimento, como mencionei anteriormente. Até aqui
a educação era vista no contexto individual, ficando fechada apenas e só no
sujeito. Hoje, esta perspetiva tem vindo a alterar-se e passamos a pensar em
grupo/coletivo, seguindo um modelo em rede, um modelo de diálogo, de partilha
através de uma participação intensa suportado pela partilha das tais
representações do conhecimento que cada um de nós tem e vai adquirindo ao longo
da vida. Segundo Delors (1998, p.18) “parece
impor-se, cada vez mais, o conceito de educação ao longo da vida, dadas as
vantagens que oferece em matéria de flexibilidade, diversidade e acessibilidade
no tempo e no espaço”. Castels, por seu turno, refere que os novos
conhecimentos e novas práticas da Sociedade da Informação exige, obriga a um
esforço de aprendizagem permanente. “Na base de todo o processo de mudança social está um
novo tipo de trabalhador, o trabalhador autoprogramado, e um novo tipo de
personalidade, fundada em valores, uma personalidade flexível capaz de se
adaptar às mudanças nos modelos culturais, ao longo do ciclo de vida, porque
tem capacidade de dobrar sem se partir, de se manter autónoma mas envolvida com
a sociedade que a rodeia”. (Castells,
2005:27)
.
Em épocas de profundas mudanças sociais, a escola tem
sido colocada em causa. A importância do papel do professor enquanto agente de
mudança nunca foi tão importante. Inicialmente, uma das finalidades de base do
sistema educativo foi alfabetizar os alunos, para saber ler, escrever e contar.
Hoje, esta finalidade mudou radicalmente já que a comunicação não é somente
feita através da linguagem escrita e oral mas sobretudo através da visual,
audiovisual e multimédia. Neste sentido, qualquer pessoa que não trabalhe com
as novas tecnologias não conseguirá aceder a grande parte da informação
veiculada na nossa sociedade, logo não terá acesso à cultura da sociedade da
informação nem tampouco terá a possibilidade de organizar o conhecimento.
Assim sendo, as tecnologias de informação e das
comunicações adquirem por isso uma importância cada vez maior na área da
Educação. Os seus objetivos e impactos contribuem para a melhoria dos processos
de ensino-aprendizagem, sendo hoje reconhecido à Escola o papel de principal
pilar na construção da Sociedade da Informação. Portanto, hoje, escola e
professores encontram-se confrontados com novas tarefas. Neste sentido, a
escola deverá, quanto a mim, ser um espaço onde são facultados os meios para
construir o conhecimento, atitudes e valores e adquirir competências para que
se torne um dos pilares da sociedade do conhecimento. Esta sociedade reclama,
por isso, uma nova educação. Ou seja, “requer uma reconversão total do sistema educativo, em
todos os seus níveis e domínios. Isto refere-se, certamente, a novas formas de
tecnologia e pedagogia, mas também aos conteúdos e organização do processo de
aprendizagem” (Castells, 2005:27).
Apesar de todos os esforços feitos até agora, a escola
não se soube adaptar às novas tecnologias educativas. Existe um enorme
desfasamento entre o que exige o novo ambiente social e o que as escolas estão
em condições de poderem oferecer. É comum, ouvir hoje falar em, por exemplo,
alterações ou “reformas” da gestão e da organização escolar. O certo é que as
novas tecnologias da informação e comunicação colocam em causa o tradicional
ato de ensinar e aprender, a nossa forma de organização do trabalho, os nossos
hábitos e atitudes. É neste sentido que há a necessidade de fazer alterações,
ou seja, para a escola tirar um verdadeiro proveito das novas tecnologias e se
adaptar às necessidades da sociedade da informação, a escola tem de pensar as
suas estruturas, a sua organização geral, os seus métodos pedagógicos e o
próprio conteúdo do que é aprender.
O sistema educativo foi, inicialmente, pensado para
que todas as pessoas pudessem, uniformemente, ter acesso ao mesmo tipo de
educação. Assim sendo, o sistema educativo, não deveria ser pensado para todo o
país mas deveria, sim, ser flexível e adaptado à realidade social e educativa
da região onde se insere, contribuindo para uma educação aberta, flexível e
inclusiva, projetada pela sociedade em rede. Há, pois, e nesta linha de ideias,
a necessidade de repensar/reconfigurar o sistema educativo associado às novas
tecnologias para que os ideais da sociedade em rede se cumpram e consigamos ter
uma melhor organização do conhecimento. De acordo com Delors “os sistemas educativos devem dar resposta
aos múltiplos desafios das sociedades da informação, na perspectiva de um
enriquecimento contínuo dos saberes e do exercício de uma cidadania adaptada às
exigências do nosso tempo”. (Delors, 1998)
Para além disso, e para que haja uma aproximação entre
educação formal, sociedade e desenvolvimento tecnológico devem ser pensadas e
criadas novas infraestruturas, tais
como novos equipamentos em quantidade e qualidade e com as necessárias
atualizações. Bem sabemos que tal exige um grande investimento por parte do
Estado mas também sabemos que a educação é a o pilar desta sociedade e que nos
últimos tempos, e devido aos cortes aplicados pelo governo, esta degradou-se,
na medida em que não houve uma preocupação relativamente ao impacto que tal
provocou na qualidade do ensino e na aplicabilidade correta das leis de
inclusão. Deve também existir mais autonomia para adaptação às realidades
sociais, e abertura a novas fontes de saber e uma maior flexibilidade
curricular apostando-se em programas centrados não nos conteúdos, mas na
aquisição de competências. Além disso, o professor deve ser o gerador de
cenários, o criador de condições para que o aluno construa o seu conhecimento e
desenvolva capacidades passando a ser ele próprio o agente da sua própria
aprendizagem. Ou seja, o professor deve promover novas orientações, orientar
grupos de trabalho. Por último, e não menos importante, devem existir novos suportes de informação e meios de
aprendizagem, tais como software educativo, enciclopédias multimédia e
Internet para que possa existir um trabalho colaborativo na própria escola ou
até mesmo entre escolas.
Em suma, as mudanças sociais trazem consigo novas
necessidades educativas. Segundo Delors “a
política educativa deve ser suficientemente diversificada e concebida de modo a
não se tornar um fator suplementar de exclusão social (…) e é na escola que
deve começar a educação para uma cidadania consciente e ativa”. Neste
sentido, existe a necessidade de uma “reconversão total do sistema educativo”
em torno dos quatro pilares do conhecimento, “aprender a conhecer, aprender a
fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser”. (Delors, 1998)
.
Bibliografia:
ü Castells, M. (2006). A
sociedade em rede: do conhecimento à política. In M. Castells & G.
Cardoso (Coord.), A Sociedade em Rede: do Conhecimento à Política. Debates:
Conferência promovida pelo Presidente da República (pp. 16-29). Lisboa:
Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
ü Delors, Jaques et al (1998). Educação – Um tesouro a descobrir,
Edições ASA, Porto
ü Meirinhos. M. (2000). A Escola perante os Desafios da Sociedade
da Informação. Encontro As Novas Tecnologias e a Educação. Bragança:
Instituto Politécnico de Bragança.
ü Ministério
da Ciência e Tecnologia. Missão para a
Sociedade da Informação (M.S.I.) (1997). Livro Verde para a Sociedade da Informação. Lisboa, Portugal:
M.S.I., D.L.
ü Tornero.
J. (2007). Comunicação e Educação na
Sociedade de Informação. Porto: Porto Editora
ü Pérez
Tornero, Juan Manuel (2007). As escolas e
o ensino na sociedade da informação. In Pérez Tornero, Juan Manuel
(coord.), Comunicação e educação na
sociedade da informação. Novas linguagens e consciência crítica (pp.
41-47). Porto: Porto Editora.
ü Ramos, C. (2007). Sobre o
conceito de “Sistema”. Lisboa: Universidade Aberta

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